Monday, February 06, 2006

Das intermitências epistémicas I.

B. apertava o volante com força para segurar a vida da mãe até ele chegar ao hospital.
Umas vezes acelerava loucamente, e parecia-lhe verosímil e aceitável cortar o espaço a direito porque a cada segundo a mãe lhe morria e ia morrer realmente estivesse ele ou não lá.
Outras, abrandava; dava passagens e prioridades não prioritárias; agarrava-se a cada um dos conteúdos que ficavam para trás no enquadramento da janela do carro e deixava-se ficar para trás de si com eles, acreditando firmemente que fim era apenas e só quando chegasse ao hospital, e que antes disso ninguém podia morrer. E neste pensamento, imbuído que estava B. dessa responsabilidade absoluta, fazia o seu papel e dava por si a abdicar de chegar ao hospital de todo, que a mãe assim havia de ficar viva para sempre, para sempre à espera dele.
Era geralmente depois desta ideia que acelerava e segurava o volante com mais força e queria poder voar até ao hospital.

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