Wednesday, March 28, 2007

Eva, ou da convalescença do eu erótico.

Não tinha de ser da dor ou do anel grave no anelar que alguma coisa lhe saía. Eventualmente apoiaria a testa nas mãos mas cedo perceberia que não havia, nessa noite, o que quer que, de solene, tivesse de ser reunido por concentração desmedida na potência de sentir tristeza.
Havia noites em que o amor era tão frívolo como um cigarro fumado lentamente ao som de um jazz elanguescente. A certeza delineada de independência dava-lhe bem mais segurança do que qualquer movimento espontâneo de fé, e gostar de estar ali, a ouvir aquela música, com a desobrigação da solidão a distender-lhe os músculos como um banho quente, era mais capaz do que o esforço de reorientação positiva a exercer constantemente sobre a tendência louca do amor que é pungente.
Então escreveria sobre a mulher que é só.
Ela não existe em lado nenhum da sua rua nem dos seus anos, mas não há milímetro da sua pele branca que lhe seja desconhecido, nem ângulo que o seu corpo desenhe que não esteja já nas prescrições frias e académicas da perfeição estética. Ela não existe e no entanto é toda corpo. Esfíngico, de cera, gélido e tão só aquilo mesmo que adivinhar-lhe na impenetrabilidade da expressão uma complexa densidade emocional é mais uma condescendência desavisada que se faz por ser de facto muito bela; ou então um abuso de uma fantasia cinematográfica qualquer que começa e que acaba em nós.
Eva é manequim de um amor de poeta; nunca ninguém disse que Eva seria Eva se não tivesse um braço ou fosse mais gorda. Ela é só pele a amar; e há bastantes semelhanças entre ela e a sala onde se senta a fumar e a escrever quem a criou – podemos chamar-lhe filha do ímpeto funcionalista da desobrigação.
Não há nada de paradoxal nisto: que uma pessoa inebriada de amor por outrem se sente, certa noite, e acumule toda a vibração, que habitualmente lhe possuí o discernimento e se lhe confunde com a identidade, numa massa concentrada extrínseca e se demore depois a esculpi-la, a dar-lhe forma, a dominá-la.
Não, não é o prazer sexual, porno, de criação do corpo ideal – este é o prazer erótico de controlo do eu. É Eros por excelência: batota terrena para superação de uma falta que se sente, tensão para a metade que achamos ser de nós porque vivida como excesso fantasmático. Se habitualmente o amor por outrem leva a pessoa que está na sala a senti-la como lhe sendo devida, como sua metade certa por direito, esta noite a vertigem erótica da deposição na metade a haver foi apaziguada pela suficiência de um ponto de aplicação simulacral que foi inteiramente por si determinado, que é uma sua extensão, um seu duplo – um assistente de autarcia ontológica, por assim dizer.
A mais persistente das amantes, a que assola até os casais mais apaixonados, a mais incontornável das infidelidades: eis a solidão apresentada. Esfíngica Eva, bela, gélida, e imperturbável paz, independência da suficiência da solidão; Eva, filha do ímpeto funcionalista que devolve o eu erótico a si próprio e torna a pessoa que está na sala finalmente livre e autárquica.
Toda a violência desapareceu, a mulher que ama mais que tudo acaba de entrar agora em casa e não há angústia nenhuma de possessão.
Havia noites em que o amor – o amor a sério, aquele que se quer muito que resulte – era tão frívolo quanto isto: pura convalescença do eu.

Sunday, December 10, 2006

de um domingo.

O gato que está ao sol só a ser gato, não sabe das flores amarelas a não ser ocasionalmente pela borboleta branca que pousou agora numa, toda ela a ser borboleta branca a nada saber de ser borboleta entre flores amarelas numa manhã de sol.
Deixo-te adormecida com um beijo; trago o calor da tua pele no meu olhar para todas as coisas.

Wednesday, December 06, 2006

palhaços exibidos.

Dá-me quase vontade de rir, quase vontade de esmagar cristais.
Olha eu a equilibrar-me numa bola vermelha, eu a rir-me com o riso malévolo da euforia, eu com os olhos lunáticos de palhaços exibidos.
Há vezes em que o meu choro é um faquir de circo. Olha agora eu em voo no trapézio. Olha bem.

Sunday, October 01, 2006

a minha namorada tem olhos transparentes; olhos de vidro que brilham líquidos como âmbar ou como uma madrugada, quando está à luz à janela.
a minha namorada tem voz de água nova a correr fria entre as pedras lisas e as raízes das árvores num sítio onde o rio corra devagar.
a minha namorada tem mãos do vento lilás do fim da tarde e toque de sombra à hora de almoço de um dia de Verão.
e os dentes brilham como todas as luzes (por isso ela fica tão bem por todo o lado onde vamos) quando ela ri o seu sorriso tilintante, capaz de proteger até o mais nu e desprevenido dos esqueletos da chuva miúda que dói nos pés quando o Outono chega.
e quando ela ouve é com a pele; e quando ela fala traz a calma das coisas certas e inteiras; e, quando acorda, a minha namorada congrega o mundo todo (que a noite tinha pulverizado na ausência) num presente real com toque e forma e sabor como a epifania de uma lágrima.

Sunday, September 17, 2006

Da batota.

As coisas que te digo quando calo o que quero dizer, pela prática competente da repugnância do ridículo, são sempre todas bem melhores que a versão espirituosa que te faço chegar, por mais brilho adulto que lhes possam dar os filtros de sarcasmos e cinismos que lhes ponho, como quem põe um par de brincos num conjunto casual e julga elevá-lo só por isso a uma qualquer superior categoria do chique.
Mas tu ris-te do tilintar neurasténico e do arrogante refinamento intelectual dos risos pós-modernos que uso contigo, e fazes questão de me mostrar que és capaz do que eu não sou.
Não sei como podes dizer o que eles dizem nos filmes e fazer estrelas a partir do toque e olhar para mim tão profundamente como se o original de tudo quanto é verdadeiro fosses tu, mas é porque me despes de toda a batota que as coisas que calo são tão legivelmente só para ti.

Tuesday, September 12, 2006

Mortais encarpados do mundo a correr em espirais à nossa volta, e eu sorrio e seguro-te as mãos e digo: “vês, meu amor, como és bela?”
É tão grave que acertemos na cor do verniz das unhas das mãos; e que o gloss saiba a morango e cole os cabelos aos lábios quando o vento do fim da tarde nos despenteia e obriga a verificar os nossos reflexos nos vidros das montras.
É igualmente importante que me faças rir sem conseguir parar só com um piscar de olhos e que me dê vontade de chorar o movimento do teu maxilar na luz nova da manhã, ao sorrires devagar quando te acordo com um beijo.
Depois é importantíssimo que me sinta tolhida de amor por ti e a seguir dancemos. Dancemos. Enquanto as horas passam e dão ao universo formas novas (que são mais belas agora que o movimento sincronizado é o dos nossos corpos juntos).
Mortais encarpados do mundo que corre em espirais à nossa volta, que corre para lado nenhum, de renovação perdida em renovação perdida, tão completamente vãos na novidade constante que deixa de o ser, puderam tornar-se belos assim só por os teu dentes rirem na meia luz anacrónica do teu quarto à noite, por o teu cabelo me cobrir a cara a cada beijo e a cada abraço, por causa da cor das unhas das tuas mãos sobre a minha barriga.
Perco as mãos no teu cabelo mesmo antes de adormecer e digo que te amo. Digo “vês, meu amor, como és bela?, como te amo?, como a tua pele fica tão bem à minha?”, e o mundo passa a correr em paz.

Friday, June 16, 2006

eu não tenho o link para o clip do L-Word no meu blog.








eu é só atitude.